Nem toda desatenção é déficit de atenção (TDAH).
- Thassio Queiroz
- 7 de set. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 8 de jan. de 2024

O TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) é um dos temas relacionados à saúde mental mais discutidos atualmente. Embora seja mais tipicamente associado à infância, ele também pode ocorrer em adultos – e estes estão cada vez mais suspeitando de sofrerem do transtorno, sobretudo na dimensão do déficit de atenção. Mas será que tal suspeita é justificada? Em alguns casos, sim. Mas se o TDAH de fato ocorresse em todas as pessoas que suspeitam tê-lo atualmente, seria preocupante, pois estaríamos diante de uma verdadeira epidemia. Talvez isto até seja verdade, mas apenas em parte: a dificuldade de manter a atenção tem sido cada vez mais comum, mas isso não necessariamente configura um transtorno, ainda que seja problemático.
Este artigo não se propõe a adentrar os pormenores do TDAH, que, aliás, é um tema bastante controverso. O diagnóstico desse transtorno é complexo e requer cautela. O objetivo é levantar alguns fatores que contribuem para a suspeita generalizada em torno do déficit de atenção, e que podem induzir a erros de diagnóstico – principalmente quando o diagnóstico é feito pela própria pessoa, o que não é recomendado. Ao passo que muitos suspeitam de ter TDAH, poucos põem essa suspeição em suspeita. Ou seja: poucos se questionam sobre o porquê de acharem que podem ter esse transtorno. E essa é a questão crucial. O que está acontecendo, afinal, para que tantas pessoas considerem que podem ter déficit de atenção? É isso que este artigo pretende discutir.
Antes de mais nada, é importante mencionar que o TDAH é caracterizado por 3 dimensões: o déficit de atenção, a hiperatividade e a impulsividade. Aqui, trataremos apenas do déficit de atenção, que é a principal causa da suspeita do transtorno em adultos, e que parece ter atingido proporções epidêmicas. Existem uma série de critérios diagnósticos que definiriam o déficit de atenção. Em conjunto, eles dizem de uma experiência generalizada de desatenção e distratibilidade que gera prejuízos no dia-a-dia da pessoa que sofre dessa condição. Porém, alguns critérios se destacam como especialmente problemáticos nos dias de hoje, a saber: dificuldade em manter atenção em tarefas; não gostar de se envolver em tarefas que exijam esforço mental prolongado; ser facilmente distraído com estímulos externos; ser esquecido em relação a atividades cotidianas; dificuldade de manter o foco e desorganização.
Além do fato de a falta de atenção poder ser causada por muitas outras condições mentais (como transtornos de humor, de ansiedade, de personalidade ou dissociativos), os critérios elencados acima têm uma estreita relação com a cultura contemporânea. Há algumas décadas, vivemos um crescente processo de aceleração do tempo e de desenvolvimento e miniaturização da tecnologia. O advento da internet e dos smartphones foram etapas cruciais desse processo. A partir daí, viramos verdadeiros terminais de informações que não cessam de chegar (e que também enviamos), em um constante bombardeio de notificações que nos acompanham aonde formos. Assim, tornamo-nos acostumados a ser interrompidos incessantemente por novos estímulos. Muitos deles, desejados (como uma mensagem de alguém importante, ou um “like” em uma publicação em uma rede social), o que aguça a curiosidade de abrir o celular. As notificações, portanto, carregam uma promessa de gratificação, ou uma curiosidade a ser satisfeita, ou, ainda, uma tarefa a ser resolvida.
A instantaneidade que a tecnologia possibilitou favoreceu uma nova forma de lidar com a espera. É possível publicar uma foto assim que a tiramos, acelerar vídeos e áudios, pular um filme ou série para a parte que nos interessa, e trocar mensagens em tempo real. Podemos obter praticamente qualquer informação no momento em que quisermos usando um site de busca. Esperar se tornou obsoleto. Isso contribuiu para que nos tornássemos cada vez menos tolerantes ao tédio. Se todo nosso tempo pode ser preenchido com estímulos que nos entretêm, por que haveríamos de suportar o tédio, já que ele pode ser eliminado?
Tornamo-nos muito menos capazes de nos concentrarmos por períodos prolongados em uma única atividade do que um dia fomos. Principalmente se essa atividade for cansativa ou enfadonha. Sabemos que alguma coisa melhor, mais divertida, está ao alcance da nossa mão, no nosso smartphone. Assim, interrompemos voluntariamente nossas atividades em busca de estímulos que nos tragam distração ou gratificação, e nos tornamos acostumados a isso, ainda mais quando temos uma fonte inesgotável de tais estímulos ao nosso dispor a qualquer instante. A recompensa não pode demorar. Ela tem que ser instantânea.
Diante disso, fica fácil deduzir que também nos tornamos muito propensos à distração. Esperar, manter o foco em algo por muito tempo, diante de tantos estímulos sedutores e instantâneos, são coisas cada vez mais desafiadoras. Não à toa, muitas pessoas podem se identificar com a ideia de terem algum déficit de atenção. Porque, de fato, elas se percebem com menos atenção e capacidade de concentração do que um dia tiveram. É importante ressaltar que não há atenção plena. Esquecimentos, lapsos, enganos, não entender ou reter tudo que se ouviu em uma conversa ou aula, tudo isso é perfeitamente normal e não justificaria um diagnóstico de TDAH. Aqueles que, ainda assim, sentirem que têm prejuízos consideráveis por conta de desatenção, podem considerar uma avaliação por um profissional especializado.


